“De tanto ver, talvez, ela atravessa. Começa a descer para o mar, para o fim. Ela percorre com seu passo largo e magro as encostas das florestas. Atravessa, atravessa. São as florestas pestilentas. As regiões muito quentes. Não há o vento saudável do mar. Há o zumbir estagnado dos mosquitos, as crianças mortas, a chuva todos os dias. E depois os deltas. Os maiores do mundo. Do lado preto. Seguem para Chittagong. Ela deixou as trilhas, as florestas, as rotas do chá, os sóis vermelhos, percorre a abertura dos deltas à sua frente. Toma a direção do giro terrestre, sempre distante, envolvente, o leste. Um dia se vê diante do mar. Ela grita, ri com seu milagroso gorjeio do pássaro. Com o riso, ela encontra em Chittagong uma balsa de junco que  a leva, os pescadores querem pegá-la, ela tem companhia para atravessar o golfo da Bengala.

Então começam, em seguida começam a vê-la perto dos depósitos de lixo nos arredores de Calcutá.

Depois a perdem de vista. Depois a reencontram. Ela está atrás da embaixada da França nessa mesma cidade. Dorme num parque, saciada por um alimento infinito.

Fica lá durante a noite. E no Ganges ao amanhecer. Sempre risonha e zombeteira. Não vai embora. Aqui come, aqui dorme, a noite é calma, ela fica lá, no parque dos loureiros-rosa.

Um dia chego, passo por lá. Estou com dezessete anos. É o bairro inglês, os parques das embaixadas, época da monção, as quadras de tênis desertas. Ao longo do Ganges, os leprosos riem.

Fizemos escala em Calcutá. Uma pane no paquete. Visitamos a cidade para passar o tempo. Partimos na noite seguinte.”

O Amante – Marguerite Duras

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